NILSON SATO – Rastro Interestelar [resenha]
NILSON SATO – Rastro Interestelar [resenha]

NILSON SATO – Rastro Interestelar [resenha]

por Soraya Viana

professora, tradutora e colunista da Revista Navalhista.

Constelação histórico-afetiva

No poema Insular, Paulo Leminski nos fala de

mil milhas de treva

cercadas de mágoa

por todos os fados

Rastro Interestelar (Sertão Pasárgada, 2026) atua na mesma chave ao narrar de modo sensível acontecimentos de quase 200 anos de História intercontinental com toda a dor e a ternura que comportam.

Ao contrário do título do poema, porém, o romance de Nilson Sato é uma saga familiar, como nos informa, logo no início, o narrador-personagem. Em ordem não cronológica, ele constrói um mosaico do percurso dos Hoshi (estrela, em japonês). Essa é também uma história sobre a passagem do tempo e o despotismo humano.

Com um capítulo dedicado a cada membro da família, a narrativa é iniciada no Japão em 1838 e finalizada no Brasil em 2024. Desse período, o intenso trabalho de pesquisa do autor destaca eventos como as guerras sino e russo-japonesas, a Segunda Guerra Mundial e as ditaduras civil e militar brasileiras. Com foco na Ásia e na América do Sul, acompanhamos as relações nem sempre saudáveis entre os continentes e as consequências no dia a dia da família Hoshi, radicada no Brasil no começo do século XX.

É fácil nos apegarmos aos personagens e à sua trajetória de imigrantes, comum em tantas famílias brasileiras. Capítulo a capítulo, a narração parece nos apontar um dos familiares em fotos preto-e-branco esmaecidas e nos contar sobre seu jeito de ser, suas preferências e dificuldades. Em cada bisavô, tio ou irmão, é fácil lembrar de um parente nosso, tamanha a humanidade impressa nos personagens. Também é dada a devida importância às figuras femininas que, em especial nas primeiras gerações da família, suportam mortes, mutilações e desaparecimentos dos maridos e filhos convocados a guerras ou empenhados em cruzadas pessoais.

Nesse escopo, como não poderia deixar de ser, estão presentes cenas de violência física e psicológica, mas o que sobressai é a resistência dos laços, seja nas tradicionais uniões de jovens japoneses de aldeias vizinhas ou em amores multirraciais num Brasil recente. Uma por uma, elas constituem a constelação de afetos que moldam a continuidade da vida pulsante do romance.

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No plano da linguagem, Sato constrói coerência exemplar no emprego de alusões à astrofísica. Elas, além disso, embelezam a trama, enriquecida ainda pela visão do cotidiano e a audição de música e outros componentes do dia a dia que nos lembram da beleza do ordinário e da sua relevância em nossa formação enquanto sujeitos.

A delicadeza narrativa — como nas cenas de observação do céu noturno, hábito de mais de uma geração da família protagonista — suaviza a experiência de leitura sem, entretanto, mitigar os sinais das injustiças sofridas (ou perpetradas) pelos Hoshi. Racismo, machismo, dissensões políticas e supressão de direitos fundamentais são parte do que move uma ficção que bebe tanto da realidade contemporânea. Evidência dessa veracidade são as reproduções de documentos reais presentes no livro, que ajudam a ilustrar o enredo.

A propósito de ilustração, a da capa é uma pintura feita pelo próprio Nilson Sato. Os detalhes da arte também enfeitam o interior da edição caprichada.

“No momento do parto são tantas as coisas que vêm à mente (…) Acreditamos ingenuamente que temos o controle das coisas, mas, de fato, não temos: o batimento cardíaco dispara, o ar torna-se rarefeito, sucede uma explosão de energia, como se fosse uma explosão estelar.”

(Pp. 147-148)

Comovente e poética, a trama mostra como, apesar da evolução científico-tecnológica, repetimos no presente as piores atitudes históricas, com ganância, cerceamento de liberdades e desrespeito às dissidências de opinião. Por trazer à tona quanto ódio ao próximo praticamos de maneira reiterada por egoísmo e preconceito, Rastro interestelar é uma leitura premente. Ao proporcionar uma experiência a um só tempo intensa e delicada, o romance alude à complexidade dos atos humanos e compõe um tratado em prol do amor e do cuidado com os nossos — ou seja, todos aqueles feitos de hidrogênio, oxigênio e outras astropartículas.


Nilson Sato

Nilson Sato é pai atípico da Mari e da Nara. Também é desenhista, pintor e educador. Rastro Interestelar (Ed. Sertão Pasárgada, 2026) é seu primeiro romance. Lançou em 2024 o livro de poesia Desígnios (Ed. Folheando). Reside atualmente em São Paulo,SP.

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