Inspirados pelos últimos conhecimentos científicos no gênero de planejamento e desenvolvimento social, o governo reuniu seus ministros para discutir um novo plano de Estado: iriam fabricar românticos. A solidão como epidemia moderna, taxas de natalidade em declínio, e a pirâmide etária da população com uma base cada vez mais estreita; é necessário tomar uma atitude. É preciso cuidar dos mais velhos e se certificar de que o modelo de previdência seja sustentável, manter a cadeia de produção e mercado de trabalho potente, dar esperança a jovens desiludidos em busca do seu amor, àqueles à procura da sua alma gêmea. Além disso, a medida teria efeitos diretos na balança comercial desse país de proporções continentais. A nação verde e amarela se tornaria uma grande exportadora de produtos primários: soja, suco de laranja, petróleo, e românticos. Conhecido como “celeiro do mundo”, o Brasil iria desta vez alimentar também as bocas famintas de romantismo, se aproveitando da sua capacidade de produção em larga escala e aptidão natural para apelações sentimentais.
Em reuniões fechadas com especialistas, o governo faz suas projeções do PIB e demais indicadores relevantes. Se o programa der certo, as estimativas indicam que será o novo milagre econômico da década ao democratizar o acesso ao amor. Livros de história relatarão o feito ao lado de reformas estruturais, um modelo de sucesso para o mundo todo mostrando como o Estado pode ser um verdadeiro indutor do progresso social. O amor seria planejado de ponta a ponta como se faz com as diretrizes orçamentárias do governo, e enfim o homem do imaginário feminino seria amplamente distribuído do norte ao sul do país.
Com data e hora marcada e em cadeia nacional com rádio, internet e televisão, o presidente foi a público comunicar a medida facilmente aprovada em plebiscito popular e também por parlamentares, exibindo enfim uma pauta com força para unir todos os espectros políticos, de direita à esquerda. Sem resistência do congresso, amplamente elogiado por intelectuais e artistas, o plano foi divulgado para os brasileiros de tal forma a tornar público a engenhosidade do líder da nação, sobre o qual viria a ser seu mais audacioso projeto. A fala foi feita ao lado de todos os ministros do governo e também da primeira-dama, que permaneceu ao lado do presidente o tempo todo. Com toda a vaidade presidencial, um semblante firme e cordas vocais aquecidas para o pronunciamento, o presidente discursou tendo por plano de fundo a bandeira do Brasil. Foi um discurso breve, porém poderoso e bem comentado entre jornalistas. Ao término da apresentação, o presidente olhou com inspiração para a câmera e disse, como se pudesse observar os ouvintes por detrás das lentes:
“O amor é a partir de hoje um direito fundamental. O amor é seu, ele é meu, ele é nosso, ele é do Brasil – como quem dá a largada, proclamou assim o presidente na tentativa de ser o primeiro romântico da nação”.
Iniciou-se então as articulações para colocar em prática as fábricas e toda infraestrutura necessária para garantir a logística do empreendimento. Em pouco tempo, os centros de produção de românticos se espalharam pelo território nacional inspirando corações e letras. Não há custos para os interessados e todo o programa é custeado pelos contribuintes pagadores de impostos. Os únicos documentos exigidos são RG, CPF e certidão negativa de débitos com a união. Os participantes também não precisam ter “ficha limpa”; o amor não se importa com o passado e tudo vale a pena se a alma não for pequena1, anunciam os seus cartazes e propagandas. As inscrições podem ser feitas de forma online para comodidade do público, mas também são aceitas inscrições por cartas para aqueles que ainda não consideram como ridículas todas as cartas de amor2. A democracia enfim abraçou o romantismo como raras vezes aconteceu na história da sociedade moderna.
Nos primeiros dias de funcionamento, longas filas de interessados se formaram em frente aos centros de produção que operam como se fossem linhas de montagem. Nos seus arredores, é possível escutar o falatório constante e as engrenagens a todo vapor, encaixando peça por peça, e o clique metálico ininterrupto motivado pelo progressismo idealizador de seus criadores. Faltam funcionários e sobram interessados no programa e há uma lista de espera em função da alta demanda. Com isso, a medida já mostra sinais de vitalidade antes mesmo de seus primeiros formandos estarem prontos. Em tempos de guerras entre os sexos, de lamúrias entre os solteiros, alarmantes dados de divórcios litigiosos e famílias despedaçadas, até mesmo o mais otimista de Brasília não poderia conceber tamanho sucesso da política de românticos em seus estágios iniciais. Os brasileiros demonstram seu amor incondicional à vontade de amar mais, e mesmo que sejam fabricados, seus amores serão puros.
O tempo requerido para se produzir um romântico é breve e o processo ligeiramente simples: Pega-se uma pessoa por inteira, lhe embebeda de suas paixões reprimidas, em seguida se expurga suas desilusões do passado, se pede que descalce sua timidez e troque pela empatia, se orienta a adição de novos vocabulários todos os dias entre as refeições para melhor desenvoltura verbal. É também dada a recomendação de desativar algumas partes do cérebro e fazer contato visual com as outras pessoas sempre que possível. O processo de concepção até a finalização do produto romanceiro é acompanhado por rigorosos critérios de qualidade; não se admite romântico que não conheça poesias de cor ou que se deixe levar única e exclusivamente pelas aparências físicas. Em suma, é ensinado a tratar as criaturas como elas são. A beleza é essencial, mas há de se encontrar algo mais profundo que leve inspiração ao romântico. Essa prática deve ser repetida religiosamente todos os dias com intuito de manter o condicionamento físico e a disposição emocional.
Prontos para exercer seus novos talentos fabricados, os românticos se destacam entre os demais. Populares nas ruas os observam como um biólogo observa um mico-leão-dourado: espécie rara e próxima à extinção, mas graças a sensibilidade humana e espírito empreendedor, foi possível trazê-los de volta à vida e preservar essa exótica criatura. Nada se compara à capacidade do engenho humano na confecção de tudo que lhe possa ser conveniente, desde que haja a emergência para que o faça. De maneira desavergonhada, a quimera brasileira – sujeito composto por partes românticas manufaturadas e reminiscência da pura brutalidade masculina – encanta aquelas que cruzam seu caminho. Ao falarem com suas amadas, emitem sons que se assemelham a línguas esquecidas, quase ou praticamente mortas, mas que resistiram no inconsciente coletivo da mulher brasileira como algo de apaixonante, primordial e triunfal. Como quem puxa uma linha para desatar um nó, assim o fazem os românticos, com calma e gentileza, a desvencilhar os amores sufocados por inúmeras voltas perdidas na vida. Tamanho resultado só poderia ter sido alcançado por meio da tecnologia de ponta das fábricas, projetadas para desatrofiar o cavalheirismo perdido há muito tempo, reativar a sensibilidade masculina, e tornar de volta o bom-senso do homem do século 21, operando vias neurais e emocionais há muito tempo desativadas por falta de uso.
Fantástico e mundano, tudo ao mesmo tempo. Esse tipo de manufaturado tem por objetivo cumprir nada além do essencial e que foi perdido ao longo da história, preencher o espaço vazio deixado em nostalgia. Os dias modernos cobriram a aura das pessoas em um véu de apatia; os sentimentos deveriam ser escondidos para que não se dê vexame. Flores, assim como os carros de som, se tornaram detestáveis. Mensagens de amor? Uma porcaria. Do ponto de vista emocional, pode-se dizer que a engenharia das fábricas foi pensada como uma espécie de máquina do tempo, buscando no passado antigos trejeitos perdidos na pressa do dia a dia. No fundo, a grande sacada do presidente foi dar de volta às mulheres algo que fora tomado delas tão injustamente, uma atitude nobre e ao mesmo tempo cruel, tão comum no meio político. Os românticos seriam capazes de conversar novamente com a imaginação de suas amantes, ajudar a construir um sonho com o futuro, oferecer segurança e tesão pela vida, abrir portas e vestidos, provocar gemidos e súplicas de amor, e por assim dizer, prover aquilo que jamais deveria ter deixado de existir.
Conforme os primeiros produtos das fábricas eram despejados na cadeia nacional de consumo, os resultados da nova política pública não tardaram a aparecer. Os índices de natalidade aumentaram significativamente depois de poucos meses e a solidão não é mais a maior queixa da população. Tanto no oriente quanto no ocidente, o mundo observa atento o experimento. Jornais publicaram uma matéria relatando a possibilidade de uma comitiva Chinesa se deslocar até o Brasil para observar de perto a genial estratégia e seus centros de produção. Um acordo de transferência de patentes ao oriente também é alvo de discussão, embora os chineses compreendam existir entre os latinos certos fatores naturais da terra de difícil reprodução em regiões além mar. Seduzido pelos indicadores do curto prazo, o governo ensaiou uma comemoração em grande estilo. Municiado com os resultados preliminares da nova política, foi anunciada a vitória para o governo do Brasil na voz de seu líder:
“O dia de São Valentim passa a ser feriado bancário no Brasil. Escolhemos esse dia simbólico para que todos possam fazer livre usufruto de suas paixões, porque o amor não quer o trabalho, o amor só quer amar. – Assim recitou o presidente, em uma caprichada entonação e claramente apaixonado pelos seus dizeres”.
O país celebrou o feito junto à seus românticos como em um clima de final de copa do mundo cujo otimismo não se via fazia muito tempo. Por um momento, parecia que o amor não seria mais um golpe de sorte destinado somente a alguns privilegiados.
Dentre os efeitos colaterais do programa, passam a ocorrer mudanças de impacto urbanístico. Aos poucos, timidamente, se multiplicam os coretos entre as vias das cidades. A paisagem outrora monocromática das metrópoles se reacende com vestidos coloridos, buquês de flores, gentilezas que não esperam nada em troca, demonstrações puras de cuidado e afeto, e finalmente pessoas que escutam aquilo que o outro tem a dizer. A poluição visual dá lugar à pureza do romantismo. Ao caminhar pelas ruas, os cidadãos se sentem em uma grande utopia planejada pela liderança política do país, uma marca registrada de um verdadeiro estadista. Além disso, constata-se um grande êxodo urbano da cidade de São Paulo; por motivos pouco compreensíveis por parte das autoridades da capital, os românticos tendem a preferir outros ares.
Outro efeito inesperado, dessa vez deletério, um astronômico número de desiludidos passa a chamar a atenção nos gráficos projetados pelos especialistas. Dia após dia, os noticiários publicam a crescente curva de uma potencial epidemia a assolar a romântica nação, um risco à saúde pública que não fora previsto inicialmente. A principal queixa de pacientes, relatam psiquiatras e psicólogos, de fato não é mais a solidão, mas sim a desilusão amorosa. A psiquê dos românticos não é capaz de suportar as duras flechadas da vida. O amor não correspondido, a traição, o olhar malicioso para o sujeito do outro lado da calçada, qualquer gradação de ciúmes passa a ter um efeito arrebatador em seus corpos e mentes. Um estudo de caso recente de um dos românticos, retratou ciúmes doentios por uma amada pega em flagrante lendo versos daquele que seria o melhor amigo de seu marido.
As fábricas de românticos tratavam de amolecer corações e com isso deixaram exposto as entranhas daqueles que agora sentem não ter nada a perder e nada para se viver. Corações moles também pulsam e se tornam presas fáceis para serem dilacerados com gestos e palavras, à incerteza, às coisas naturais e inerentes de quem se propõe a amar. A desilusão causada pelo fato do amor não se encontrar reservado em uma gaveta para todo romântico, de não se tratar de algo a ser carregado debaixo do braço ou erguido para o céu como se fosse um troféu, um prêmio ao mérito. As fábricas concediam as habilidades requeridas aos formandos, mas caberia a cada um deles buscar mundo afora seus objetos de desejo, reais ou irreais. O ofício de amar não lhes deu garantia da ressonância de seus sentimentos nos corpos não fabricados das amantes. Todos com a plena certeza de serem dotados do maior amor do mundo, enquanto a história não registraria sequer um deles para fins de registro.
A desilusão dos românticos abriu margem para uma crise sanitária sem precedentes que começou a cobrir o território nacional. Há aqueles que chamam de uma “crise de realismo”. Desenganados, os românticos produzidos pelo governo disparam versos contra o peito, lotam avenidas e semáforos recitando suas paixões malucas pelas amadas que os deixaram. Suas vísceras colossais atrapalham o trânsito e impedem a circulação dos transeuntes, deixando um rastro que cobre avenidas e praças. Alguns se atiram do alto dos prédios e pontes, ao passo que o choque de seus corpos contra o chão não passa de um mero estalo para as mulheres, como biribinhas de festa junina. Seus restos mortais desabrocham nas calçadas sob sol quente, exalando uma fragrância doce e lembrando suavemente o perfume de suas amadas.
Em meio a lírica mortandade, as mulheres dançam entre os corpos amontoados. Absorvidas pelas palavras ternas e certas da sensibilidade que desarmou os homens, elas aproveitam o cortejo geral para recuperar o tempo perdido e superar o assim intitulado “mapa de fome” que assolava o gênero feminino antes do surgimento das fábricas, quando o romantismo se tratava de item escasso e de luxo. Passam a se alimentar da dedicação incondicional dos amantes que lhes restam, dos presentes variados, das promessas bobas, do carinho do toque na pele, das suas frases bonitas e inúmeras juras de amor enfaticamente repetidas; tudo isso passa a ser servido à elas como pão. Nutridas e pouco enlutadas, a oferta é tamanha para que o desperdício não se faça falta e assim seguem fartas e enjoadas de tanto romantismo. Desfilam com a indiferença no olhar que só a mulher objeto de desejo é capaz de alcançar. O caminhar firme, peitos estufados, cabelos ao vento em meio ao ar febril dessa nova sociedade projetada e saturada de paixões, ao som da lapada seca dos corpos dos românticos se arrebentando aqui e ali.
Eventualmente – mas nem sempre – elas choram. E como não haveriam de chorar? Soluçam aos prantos observando como os românticos são sensíveis ao menor olhar, lembrando finas taças de cristais prontas para última gota d’água de suas paixões. Entretanto, sempre haverá pretendente a se oferecer para beber as lágrimas femininas, elogiar a salinidade de seus fluídos, consolar e afagar o pranto. Abrir a porta do carro, pagar a conta do jantar em um restaurante caro, beijar as suas mãos, puxar para dançar e dizer “Está linda, como sempre”, somado ao olhar carente de praxe, tudo isso oferecido a granel graças à tecnologia de ponta empregada nas fábricas de românticos.
As autoridades por sua vez não admitem o fracasso e a perda de controle. Afirmam se tratar de casos esporádicos e pontuais de desilusão, nada capaz de abalar os frutos colhidos nos últimos meses. Em notas públicas, os governantes afirmam que as fábricas seguirão em plena produção, denunciam um plano da oposição para sabotar o maravilhoso empreendimento e reiteram que nunca antes na história o Brasil foi tão romântico. Em contrapartida, as demais nações mundo afora se preparam para frear a epidemia do desencanto brasileiro. Fronteiras são reforçadas para impedir o avanço da praga. Qual seria a dimensão do dano causado caso esses romanceiros fanáticos fizessem contato com o fado de Portugal ou o tango argentino? Quantas mazelas iriam chorar no blues e quantos boleros a estourar os ouvidos iriam cantar dedicando suas tristes melodias às suas amadas perdidas? “Precocemente vencido e motivado pelas paixões, como de costume entre os brasileiros, esse é o resultado da sua última tentativa de engenharia social” – assim relatava a mídia internacional, noticiando sobre os últimos acontecimentos da tragédia entre os trópicos.
A barbárie prossegue e as famílias não sabem o que fazer com os filhos que ainda lhes restam. Relatam que eles abandonaram os videogames, o futebol, o baralho e também a pornografia. Embriagam-se nas esquinas, compartilham versos e seringas. Tantos morrem de desidratação por seu choro exagerado; tão sensíveis e tão pueris. Efeito do desdém de suas amadas, os desenganados se escondem sob as sombras com vergonha de seus sentimentos, fonte de suas maiores fraquezas. O romantismo que outrora produziu protagonismo em sua vidas, passa a servir de incentivo ao ostracismo como mecanismo de auto defesa. Com muito a dizer em seus corações mas sem possibilidade de se expressar ao mundo, formam-se grupos de apoio. Seus integrantes são intitulados de Românticos Anônimos, se reúnem aos finais de semana em salas fechadas e discutem seus medos e os desafios de se viver à flor da pele. Sentados em cadeiras organizadas em círculo e imbuídos de um ar sério e reflexivo, os românticos anônimos compartilham o que ainda sentem ao expressar para o grupo seus pensamentos:
“Evite o primeiro olhar – repetem eles – a recuperação é feita de escolhas diárias de se fechar o coração e de controlar as expectativas da mente. Não sonhe demais; o uso indiscriminado dos sonhos tem efeitos colaterais perversos e pode assustar aqueles que não estavam no mesmo sonho que você… Ame o bairro todo se quiser, mas faça a sua cerca!”.
Emocionados e trêmulos, trazem relatos da mais fina filosofia:
“Isto também passará. Todos os amores passam. Nada é único. Só por hoje, controle essa chama ardente no peito, e de repente, não mais que de repente, outra há de aparecer. Em muitas ocasiões, a paciência pode mais que o amor”.
Entretanto, não é possível desfazer o que já está feito. Não há protocolo de recall para românticos. Cabe a cada um deles digerir da maneira que lhe convém, aprender a como orquestrar sua sensibilidade e desenvolver talvez uma carapaça máscula que lhe sirva de abrigo. A estes está sacramentada a dura realidade de se viver em um corpo que não gostaria que fosse seu. Tudo culpa das fábricas e da ganância dos políticos no ganho fácil e de curto prazo.
Diante da pressão popular e reconhecendo os efeitos maléficos produzidos pela política no longo prazo, em conjunto com o impacto orçamentário de limpar as ruas, as campanhas de publicidade, o funcionamento e manutenção das fábricas, o governo decidiu enfim encerrar o programa. As fábricas aos poucos foram desmanchadas e os equipamentos que outrora forjavam cavaleiros da prosa, tiveram seus pedaços individualizados e vendidos como latão aos sucateiros. Os participantes incapacitados de trabalhar e seguir em frente com suas vidas, receberam parcelas indenizatórias da união como forma de reparação. Nesse cenário, os governantes se fizeram corresponsáveis pela tragédia brasileira, desviando tantos homens xucros de seus destinos naturais da sociedade moderna; amadas e amantes transviados do país verde e amarelo. Ao fim do desmanche geral do programa e desativação das fábricas, foi possível encontrar pelas cidades abraçadas pelo programa o que seriam vestígios de uma civilização romântica. Fragmentos de cartas perdidas, o medo fazendo sombra nos apartamentos vazios e mudos, o cheiro doce deixado pelos românticos. Os galpões logísticos utilizados na distribuição foram reformados e deram lugar a museus para que a história nunca nos permita esquecer quantos deram à vida, corpo e alma em troca de esperanças bobas. Não se pode tomar por ficção tamanha cicatriz social deixada por uma política de governo.
Os retratos das amadas também são exibidos nos museus, todos produzidos pelos seus amantes. Traços perfeitos desenhados visivelmente com profundo esmero. Molduras fantásticas a contornar suas obras lhe proferindo um destaque exemplar entre os corredores. Detalhistas, os autores cobriram rugas, celulites e pés de galinha como qualidades e charme natural. Nunca se tratou de um concurso de beleza, mas sempre daquilo que eles mesmo carregavam dentro de si, seus mais profundos afetos. Assustados com a lembrança quase onírica desse fracassado projeto social de desenvolvimento, alguns visitantes se questionam ao observarem os itens exibidos nos museus:
“Mas como é possível homens terem feito obras tão belas? Justo eles, que tem um buraco no lugar do coração”.
Enquanto isso nas ruas, o consenso entre as amadas é certo: desde que se desvie o olhar – dizem elas – é possível acreditar que eles nunca estiveram ali; e os românticos por sua vez, passaram a desejar que de fato nunca tivessem existido.
Além de objeto de coleção em extensos antiquários, os românticos – agora desiludidos e também desnecessários – voltam a se tornar uma peça rara no tecido social brasileiro. Consequentemente, aos poucos tudo volta ao rumo natural das coisas, com relacionamentos modernos moldados e projetados não mais pelo governo, mas pela conveniência orgânica da vida. Danem-se os poetas, as expectativas surreais e infladas, a esperança de encontrar sentido na vida com a companhia de alguém, o caminhar de mãos dadas, as pequenas gentilezas, a vontade de ressignificar o “para sempre”. Todos têm coisas mais importantes para fazer, como cuidar de seus pets, terminar seu livro favorito, se dedicar à carreira e ao trabalho, aproveitar o tempo reservado para si mesmo e sua solitude. No caso dos governantes, as atenções se voltam novamente para a cana de açúcar, as terras raras, e as energias renováveis.
1Frase do poema “Mar Português” de Fernando Pessoa
2Frase do poema “Todas as Cartas de Amor são Ridículas” de Álvaro de Campos

Caio Gimenes Veríssimo é natural de São Paulo e é graduado em Psicologia. Começou a escrever sobre aquilo que não conseguia entender, sempre inspirado pelos clássicos da literatura. Pensa que todos são navalhistas, a diferença é que alguns escrevem e outros não.

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