Às 18h o mundo vira um caos. É a hora de bater o ponto, de sair pela porta do trabalho ao encontro do vento frio da noite que se avizinha e de entrar pela porta do carro estacionado ali perto, ele frio na mesma medida. As setas se transformam em melhores amigos — raros como eles —, o sinal verde em São Pedro utilizando finalmente suas chaves do Paraíso, as rótulas em formigueiros apinhados de carros que passam um por cima do outro, não respeitando ninguém, e os cruzamentos… Ah, os cruzamentos. Esses é melhor evitar.
Na ânsia por encontrar o melhor caminho — que é sempre o caminho mais rápido — evita-se as avenidas. A grande maioria opta pelas ruas secundárias, mas nem isso é capaz de diminuir o fluxo interminável de carros que vagam incessantes e moribundos, tal qual moscas na hora do almoço, nas ruas com nomes de coronéis, ex-presidentes e ditadores. Todo mundo quer e precisa de um pedaço. Quase-acidentes acontecem o tempo todo e muitos acidentes acontecem de fato, nessas avenidas históricas, imponentes, futuristas. Os sons de pneus ora arrancando, ora freando bruscamente, somam-se aos de motores barulhentos, para-choques baixos, buzinas apressadas, gritos machistas e um ou outro engraçadinho com o som potente. O rádio, no caos completo que é a cidade às 18h, mal consegue disfarçar o barulho vindo de fora, estejam as janelas fechadas ou não. E, às vezes, Deus ainda faz chover aquela chuva burguesa.
Bem às 18h.
Naquele dia, no entanto, outro barulho incomum que não a chuva se somou à orquestra permanente e desafinada da cidade quase-grande. Era um homem magro, moreno, de chinelos, camiseta preta, calção e boné. Atravessava a faixa de pedestres enquanto o sinal permanecia fechado pelo que parecia uma eternidade e gritava a plenos pulmões, chicoteando o vento com palavras e com as mãos, jogando a cabeça para frente e para trás, tropeçando em si mesmo e olhando para todos os lados ao mesmo tempo.
Em uma Strada bem à frente da sinaleira, uma das mais movimentadas da cidade, Diego pensava no caos que ainda o aguardava. Faltavam três farmácias e já passavam das 18h. Sempre que o caminhão da firma atrasava, sobrava para ele. Nesses dias, chegava em casa perto das 19h porque sua rota de entregas era a maior da distribuidora. Fazia o trabalho de dois, ganhava nem bem por um, e o patrão ainda pagava a maior parte por fora. Seu FGTS era uma piada. Seu décimo uma mixaria. Queria só ver quando fosse se aposentar, se é que iria… E ele ali, no meio daquela zona que era o trânsito da cidade depois das 18h. Mas era aquilo ou Uber, e nunca mais faria Uber. Nem que precisasse fazer entregas atrasadas pelo resto da vida.
Os gritos do homem o alcançaram de repente, quando as barras vermelhas do semáforo começaram a descer, e Diego olhou-o com atenção. Ele isolou todos os outros sons inconscientemente e a voz do homem atingiu-o em cheio como se fosse a única coisa viva no mundo. Mesmo às 18h, o horário mais barulhento do dia, eram apenas ele e aquele cidadão que gritava, gritava e gritava. Diego conseguiu ouvir claramente as palavras que seu amigo dizia e, pela comicidade, insensatez e ousadia do sujeito, esboçou um sorriso.
Ana e Carlos, em um SUV dos mais modernos parado atrás da Strada, também reclamavam do caos um para o outro, cada um tirando o seu da reta e culpando o parceiro. Sair de carro naquele horário, ideia da outra pessoa, não fazia parte da rotina de nenhum deles. Sempre saíam do escritório às 16h. Quando muito. E olha que só chegavam às 10h. O caminho todo foi de uma lamentação profunda e sem fim, principalmente porque ele/ela não se organizaram direito para arrumar as malas na noite anterior. Assim, perderam horas preciosas na tarde daquele dia — tanto que nem conseguiram ir trabalhar — e só tiveram tempo de ir à academia no maldito horário das 18h. Culpa dele. Culpa dela. Até cogitaram voltar para casa bem antes da metade do caminho. Afinal de contas, não apenas o trânsito, mas a academia também estaria lotada. Infelizmente, ou treinam agora ou perderiam o voo no início da madrugada e, se não treinassem, o personal os mataria. A nutri os mataria também. Só conseguiriam treinar dali a dois ou três dias, quando a rotina em São Paulo permitisse dar um pulinho na academia do hotel. Passariam pelo caos e treinariam, sim, senhor. Por mais que ele não merecesse. Por mais que ela não merecesse.
Apesar de estarem naquele exato momento discutindo novamente a culpa da situação, do horário e do atraso, mesmo que com o vidro do SUV fechado para garantir a temperatura agradável no interior, Ana e Carlos interromperam seus argumentos ao ouvirem os gritos de seja lá quem for. Estava próximo da janela do motorista, aguardando no canteiro central o estanque da sangria na outra mão para, finalmente, poder avançar. Ana fez uma careta e soltou o ar com pesar, Carlos balançou a cabeça em negativa e o sinal amarelo piscou uma última vez.
Suzana, atrás do SUV em um utilitário pequenininho e com as mãos tremendo envoltas no volante, prometia a si mesma que se demitiria no dia seguinte. Chega. Paciência tem limite e a dela tinha se esgotado. Não tem como aguentar aquele trânsito todos os dias. No cruzamento anterior, quase causou um acidente. Já bateu o carro duas vezes na volta pra casa — em uma estava errada, na outra o homem acelerou por cima do canteiro e partiu em velocidade pelo caminho oposto; nas duas, o prejuízo ficou com ela. Vai pagar seguro como? Não, não aguentava mais. “Não tem como você sair trinta minutos mais cedo”, o patrão disse. Aquele mesquinho insensível. “Vir trinta minutos mais cedo pela manhã não me ajuda”. E daí, ela queria ter dito. Você mora ali do lado. E ela, faria como? Não sabia, mas disso tinha certeza: pediria as contas amanhã mesmo e trabalharia em qualquer lugar perto de casa. Provavelmente naquele atacadão que inaugurou há pouco tempo, apesar de todos os imigrantes que enchiam os caixas e corredores. Sempre precisam de gente lá e ela estava disposta a encarar. Não aguentava mais aquele calvário todo fim de expediente e a negativa do patrão na manhã daquele dia tinha sido a gota d’água, apesar de ter se dado conta da exaustão apenas ali, no meio do trânsito, sem poder ir e vir. Ilhada e sozinha naquele mar de gente, fumaça, combustão e ilegalidade. E com uma baita de uma crise de ansiedade batendo na porta. Toc-toc-toc-toc…
Foi como primeiro pareceram a Suzana os sons que o homem no meio do canteiro emitia. Com os vidros abertos, pois a gasolina não dá em árvores para se esbanjar ar-condicionado, ela olhou para o lado e viu a silhueta do homem entre os galhos de uma pequena árvore no canteiro central — os braços pra lá e pra cá, pra lá e prá cá. Mal conseguia ouvir o que ele falava. Eram sons misturados com palavras que ela ora achava que conhecia, ora que não. Talvez um imigrante. Mais um… O homem continuou gritando incessantemente e ela sentiu pena na mesma hora.
Letícia e Victor, atrás de Suzana, não tinham escolha. Era o caos ou o caos. O carro popular que levava os dois para casa após um longo dia de trabalho tinha sido financiado em sei lá quantas vezes, assim como o apartamento do outro lado da cidade. Eram ACTs e foram mal na última prova do Estado. Mal não, mas pior do que a metade. Era o suficiente para não conseguir nada minimamente perto de casa. A escola no fim do mundo ou o despejo? A escola no fim do mundo e, até ela, o trânsito infernal. Como nem tudo é de se lamentar, conseguiram ao menos boa parte das aulas em uma mesma instituição, ainda que, em alguns dias, Victor precisasse fazer um caminho maior, saindo de onde dava aula para buscar Letícia na outra escola. E, então, de novo o trânsito. E em casa a louça, a roupa, o pó e as provas. Vidinha difícil a deles, mas fazer o quê? O olhar que todo mundo lhes destinava quando diziam que seriam professores já entregava a realidade que iriam enfrentar. Agora a enfrentam, mesmo tendo em mente que, um dia, se sair concurso — porque sempre tem a incerteza do concurso — as coisas iriam melhorar. Paciência…
Distantes, os dois quase confundiram os gritos do regente da vez com o barulho alto dos motores de uma daquelas caminhonetes gigantes que mal cabem nas ruas da cidade. Como se fizesse questão de ser visto, o homem saiu detrás da pequena árvore no canteiro central e começou a caminhar, ainda gritando e gesticulando, para o outro lado da rua. Palavras ao vento, inaudíveis, apesar dos indistintos sons que chegavam até eles. O homem se distanciava e Letícia e Victor o olharam com simpatia. O silêncio companheiro que ambos cultivavam após um longo e exaustivo dia de trabalho foi rompido. Em seu lugar, um sorriso íntimo abrilhantou o rosto dos dois.
– Louco… – disse Diego, sorrindo ao engatar a primeira marcha e acelerar.
– Vagabundo! – disseram Ana e Carlos ao mesmo tempo, enquanto o motor automático se animava e avançava silenciosamente.
– Coitado… – comentou Suzana, repensando a ideia de pedir demissão.
– Outro professor – Letícia e Victor brincaram, o sorriso se transformando em risada tímida. Um riso meio graça, meio amargor.

Gustavo Debastiani é graduado em História pela Universidade Federal da Fronteira Sul, campus Chapecó. É autor do romance Por Amor (2022, Editora Viseu) e baixista das bandas Introspectiv e Camarão Pistola. Publica crônicas e outros escritos esporadicamente em https://medium.com/@gdedebastiani.

![GUSTAVO DEBASTIANI – Uma orquestra permanente e desafinada [crônica]](https://revistanavalhista.com/wp-content/uploads/2026/08/download.jpeg)