NAVALHAR É PRECISO – PEDRO SANCHES [entrevista]
NAVALHAR É PRECISO – PEDRO SANCHES [entrevista]

NAVALHAR É PRECISO – PEDRO SANCHES [entrevista]

Nós conversamos com o escritor amapaense Pedro Sanches sobre os mistérios que encontramos no seu livro de estreia, o romance O boneco, lançado pela editora O Zezeu em 2026. Ele nos conta de onde veio a inspiração para a força narrativa, o motivo de escolher a ambientação histórica e o quanto há de interferência do sobrenatural na metáfora cotidiana. Confira!

REVISTA NAVALHISTA – Em O boneco (O Zezeu, 2026), a dúvida entre o sobrenatural e a perturbação psicológica acompanha o personagem Severino desde os primeiros capítulos. A construção de Severino aproxima o leitor de seus medos e incertezas antes mesmo dos acontecimentos extraordinários. Na sua concepção, um romance de suspense começa pelo enredo ou pela construção psicológica de seus personagens? Em que momento você percebeu que essa ambiguidade deveria sustentar toda a narrativa, em vez de ser apenas um recurso de suspense?

PEDRO SANCHES – Em, em O Boneco, o suspense começa desde o primeiro parágrafo, na realidade. A questão é que Severino não é um personagem totalmente confiável, então existem dois “mistérios” a serem desvendados simultaneamente. O primeiro é descobrir se Severino de Almeida realmente é alguém são ou não, e o segundo é descobrir o que há por trás desses supostos elementos sobrenaturais. E seria impossível escrever este livro sem essa tal ambiguidade, pois é justamente ela o cerne de tudo. Ambiguidade entre o racional e o irracional, entre a formalidade e a subversão, entre o horror e a banalidade… “O Boneco” É um romance naturalmente ambíguo.

R.N. – O seu romance pode ser lido tanto como um thriller, quanto como um romance de formação. Há um momento em que Severino percebe que talvez exista “um outro mundo dentro do mundo”. Equilibrar o crescimento interior de Severino com a necessidade de manter o ritmo é a grande tensão da história. Essa descoberta representa apenas uma mudança na trama ou também uma transformação na maneira como ele passa a compreender a si mesmo?

P. S. – Com certeza, muda a maneira como ele passa a enxergar a si mesmo.

R.N. – Um elemento que chama nossa atenção é o cenário. A história se passa em 1969, durante a ditadura militar, mas o contexto histórico nunca se sobrepõe ao percurso do protagonista. A narrativa incorpora referências históricas, políticas e culturais brasileiras sem perder o caráter ficcional. Em sua visão, qual é o papel da pesquisa histórica quando ela se coloca a serviço da imaginação literária? Conte-nos como você trabalhou para que a História funcionasse como força narrativa, e não apenas como cenário?

P. S. – Para o livro em si, foram necessárias certas pesquisas para evitar anacronismos e garantir maior verossimilhança, principalmente no que diz respeito ao vocabulário, aos hábitos específicos e até aos eventos históricos que poderiam ou não já ter acontecido em agosto de 1969. Por exemplo, o que eu, P. S. , tomo no café da manhã no Amapá no ano de 2026 não é o mesmo que Severino tomaria no seu café da manhã em 1969, em Petrópolis. Então, foi necessário prestar atenção nesses detalhes. Mas o grande segredo para escrever sobre um período antigo com mais naturalidade é reforçar, na sua mente, que os personagens não estão vivendo uma encenação daquele tempo, mas sim o tempo propriamente dito. Então, se eu for escrever sobre uma cena específica em que alguém cita que esteve presente no dia da inauguração de Brasília, eu não posso fazê-lo explicar o que foi a inauguração de Brasília, nem citar isso como se fosse algo extraordinário, justamente porque aquilo é natural para ele, faz parte do seu cotidiano. Ele não pode pensar: “Meu Deus, a inauguração de Brasília, que incrível!”

R.N. – O seu romance O boneco (O Zezeu, 2025) dialoga com elementos do romance histórico, do suspense e do horror sem se prender completamente a nenhum desses gêneros. Você pensa nas fronteiras entre os gêneros literários durante a escrita ou prefere que a própria história determine o caminho da narrativa? Explique-nos.

P. S. – Nunca tive a intenção de seguir um gênero específico ou tradições literárias. O que acontece é que, eu tenho minhas influências de diferentes gêneros, como, por exemplo, o terror sobrenatural (O Bebê de Rosemary), o erotismo psicológico (The Story of O) e os romances históricos (Em Nome da Rosa e Incidente em Antares), porque, ao mesmo tempo em que essas obras falam sobre diferentes temáticas, elas abordam problemas muito parecidos no fim do dia. Sendo assim, foi natural para mim desenvolver a história de “O Boneco” e não me atentar de forma plena a qual gênero ele mais pertencia. E eu acho que é especificamente esse o diferencial do livro, pois, é a partir desta mesclagem de referências e gêneros que, ao meu ver, ele ganha cores próprias e não se torna mais um livro de horror ou sobre a Ditadura Militar.

R.N. – O livro mobiliza símbolos clássicos do suspense, a saber: casas antigas, passagens secretas, livros misteriosos, seitas e rituais. Tudo isso sem abandonar uma identidade brasileira muito marcada. De onde vem essa inspiração? E como você buscou renovar esse imaginário dentro de uma realidade nacional?

P. S. – O imaginário para os elementos envolvendo seitas, rituais, passagens secretas etc. veio justamente do nosso próprio país, por incrível que pareça. Existem histórias que mencionam seitas e conspirações no Brasil há muito tempo. O caso que mais me inspirou, com certeza, foi o dos Meninos Emasculados no Pará, em que, após alguns garotos serem mortos em sequência e sofrerem emasculação, houve um enorme “pânico satânico” que permeou as investigações do caso na década de 90 e, inclusive, alegações de que autoridades e pessoas poderosas do latifúndio do Pará naquele período estariam envolvidas no caso, assim como um grupo religioso brasileiro conhecido como “Lineamento Universal Superior (LUS)”. Histórias como essas, por mais fantasiosas que sejam, estão presentes no nosso imaginário coletivo, e o que eu, particularmente, acho mais assustador é que elas não nascem em castelos da Europa ou estão relacionadas a figuras presidenciais, mas têm a ver com pessoas comuns do dia a dia, em contextos corriqueiros… para você ter uma ideia, enquanto eu pesquisava sobre o caso dos Meninos Emasculados em Altamira, eu acabei tendo acesso a um depoimento de uma assistente social que escreveu uma carta a um padre de Altamira. Nesta carta, ela dizia que teve contato com um homem em um restaurante de Macapá (AP) e que acabou contando certas coisas que ele supostamente fazia a mando de algumas pessoas suspeitas envolvidas com o caso. O ponto é que esse depoimento chegou à polícia e o homem acabou sendo preso, claro, mas o restaurante que ela cita é um onde eu, P. S. , já visitei muitas vezes na infância, e eu confesso que jamais poderia ter imaginado que ele, na vida real, poderia ter feito parte de uma história assim… viu? O estranho não está necessariamente longe.

R.N. – A genealogia da família da personagem Nadja revela que o passado continua influenciando o presente. Você acredita que toda história familiar carrega forças invisíveis que continuam moldando as escolhas das gerações seguintes? Explique-nos.

P. S. – Obviamente, influencia. Eu acredito, até como formando em psicologia, que nós herdamos certas “dívidas emocionais” das nossas famílias. São predisposições e preceitos que, muitas vezes, nós precisamos ir quebrando ao longo da vida, por mais que apareçam de forma inconsciente. Isso aparece em O Boneco, em suma, através da relação entre Nadja e Constância, em que a personagem Nadja é, de certa forma, obrigada a seguir os caminhos da avó… O que é algo um tanto quanto interessante, pois Constância pertence a uma profissão não tão tradicional, que é a do balé, mas, ainda assim, exerce uma influência sobre ela de uma maneira nada progressista (risos). Outra “dívida emocional” que aparece no texto é a do próprio Severino em relação às origens dele. Existe um medo muito grande de retornar a essa base de onde ele saiu, assim como uma cobrança interna para que supere o seu núcleo de certa forma. E isso, inconscientemente, é o que o leva a certas escolhas que aparecem ao longo do livro. É um pouco parecido com Édipo tentando desesperadamente não retornar a Tebas, mas agora com alguém que ao invés de tentar evitar o destino, tenta evitar o passado.

R.N. – Toda literatura nasce de uma visão de mundo e de uma teoria do belo, mesmo quando não declarada. E aquilo que o autor acredita ser o coração da arte. Na sua escrita, o que é o “belo”? Onde ele está? Há algum pensamento teórico que dialoga com o modo como você constrói o encanto e a beleza dentro do seu livro?

P. S. – O que é belo para mim? É difícil responder a isso de uma maneira tão abrangente, mas acredito que a beleza esteja sempre relacionada ao esmero, ao cuidado e ao zelo. Em O Boneco, isso aparece através de uma certa delicadeza que, acredito, permeia todo o texto. De modo geral, sou uma pessoa muito ligada à estética e quis transparecer isso no livro de diversas maneiras: no material gráfico, nas músicas citadas e até mesmo no ritmo do próprio romance. A questão é que existe um certo pensamento disseminado na literatura, principalmente na brasileira, que parece rejeitar esse “apreço pela beleza” e, muitas vezes, encara o cuidado estético como algo superficial ou até descartável. O que alguns não entendem é que, na realidade, isso engrandece ainda mais uma obra pois a beleza, no final das contas, não é uma inimiga intelectual.

R.N. – A psicologia do personagem Severino realmente nos impactou. Pois ela é construída de forma que o leitor nunca saiba exatamente onde termina a realidade e começa o delírio. Como foi escrever um protagonista cuja maior batalha acontece dentro da própria consciência?

P. S. – Foi muito angustiante escrever sobre essa tal batalha. Quando Severino não consegue mais confiar na própria percepção, ele também não sabe mais o que aconteceu; não sabe quem está dizendo a verdade, não sabe se suas lembranças são confiáveis, não sabe se seus medos possuem fundamento, não sabe se suas interpretações correspondem à realidade etc. E isso tudo leva a uma espécie de morte simbólica. Afinal, quando você deixa de confiar na própria vida, você também não consegue mais vivê-la.

R.N. – Sigamos. Vamos afirmar aqui: O romance sugere que existem estruturas de poder que permanecem ocultas sob a vida cotidiana. Sabemos que tem é mais do que uma conspiração ou figura de linguagem. Então, nos conte como essa ideia funciona como uma metáfora para quais aspectos da sociedade contemporânea?

P. S. – Essas estruturas representam um certo lado oculto da sociedade, mas que, paradoxalmente, sempre esteve estampado diante dos nossos olhos. É muito perturbador, por exemplo, perceber que determinados artistas de projeção nacional são, na realidade, filhos ou netos de pessoas importantíssimas da política brasileira, ou descobrir que certas ruas carregam os nomes de famílias que, há décadas ou até séculos, participam da definição dos rumos do país. Fábio Porchat, por exemplo, é filho do político Fábio Ferrari Porchat de Assis, que foi secretário municipal de Cultura durante uma gestão de Jânio Quadros, ex-presidente da República. Isso não faz parte de uma teoria, é apenas um fato — ou seja, essas famílias e instituições ligadas às estruturas de poder não estão necessariamente presentes de maneira “escondida”. Na realidade, elas estão na nossa frente: na televisão, nas colunas dos jornais, nos espaços públicos, nos sobrenomes e em praticamente todos os lugares. Eu não estou querendo assumir que todas elas sejam maléficas como as apresentadas em O Boneco, mas, sim, que são algo ainda pior: inevitáveis.

R.N.  – Ao final da leitura de O boneco (O Zezeu, 2025), permanece a sensação de que O boneco fala menos sobre monstros sobrenaturais e mais sobre a experiência humana diante do desconhecido. Essa era a principal travessia que você desejava propor ao leitor?

P. S. – Talvez sim, talvez não.

R.N. – Faremos outra afirmação: O suspense depende tanto daquilo que é revelado quanto daquilo que permanece oculto. Dito isto, nos responda como durante a escrita, você encontrou o equilíbrio entre oferecer respostas ao leitor
e preservar o mistério?

P. S. – Se colocando no lugar do leitor. Quando você é um autor e escreve um romance, você sabe os rumos que esta história vai tomar, então é preciso que você faça um exercício mental de se colocar no lugar de um suposto leitor e pense: “O que eu gostaria de ler neste determinado ponto para me interessar?” e “O que eu não gostaria de saber neste ponto da história para que ainda sinta curiosidade em relação a ela?”. Com isso, e também utilizando a ferramenta de plantar respostas e dúvidas simultaneamente, é possível criar um equilíbrio.

R.N. – Há algum aspecto de O boneco (O Zezeu, 2025), ou de sua trajetória como escritor ou dos próximos passos desse universo literário que você gostaria de compartilhar com os leitores e que considera importante para compreender melhor a obra?

P. S. – Acho que todas as respostas para isso estão dentro das páginas de “O Boneco”.

R.N. – Terminamos com aquele caloroso tapinha nas costas. Agradecemos demais por somar conosco. Conclua falando o que desejar. Liberdade total. Até uma próxima.

P. S. – Agradeço pela oportunidade. Convido os leitores da Revista Navalhista a lerem O Boneco e a ficarem atentos às futuras atualizações.


Pedro Sanches

Pedro Sanches Virgolino, 23 anos, escritor, ator e estudante de psicologia. Natural de Macapá (AP). O boneco (O Zezeu, 2025) é seu livro de estreia.

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