REVISTA NAVALHISTA – Ao longo do seu livro Poéticas do Cuidado, das brevidades e das suturas (Editora Folhas,2025), o cuidado aparece além de ato afetivo, também como uma prática que precisa ser aprendida e exercitada. A leitura dá a impressão de que ninguém nasce pronto para cuidar; trata-se de uma construção permanente. Pensando também na sua experiência profissional, o cuidado é algo que desenvolvemos ao longo da vida? O que a poesia consegue revelar sobre esse processo que muitas vezes passa despercebido no cotidiano?
GIOVANI MIGUEZ – O cuidado não é um dado biológico ou um instinto que desperta magicamente; ele é uma técnica no sentido mais grego do termo, uma techné, um ofício que se aprende no atrito com a vida. Na minha trajetória profissional, lidando diariamente com as estruturas complexas e muitas vezes áridas da saúde pública e do ambiente institucional do câncer, percebo que o cuidado técnico sem a dimensão da presença se esvazia. Desenvolvemos o cuidado ao longo da existência justamente porque ele exige a desconstrução do nosso próprio egoísmo para dar lugar ao outro.
A poesia entra justamente aí, no avesso do automatismo cotidiano. O dia a dia institucional ou urbano tende a burocratizar os afetos; passamos a gerenciar corpos e tempos. A poesia opera como uma desaceleração forçada, uma lente que capta o milimétrico: o tremor de uma mão, o silêncio que precede uma resposta difícil, a dignidade de um gesto simples de amparo. Ela revela que o cuidado não está nos grandes enunciados, mas nas frestas, naquilo que a pressa costuma soterrar.
R.N. – Sabemos como a maturidade que muitos aspectos do desenvolvimento humano continuam nos acompanhando mesmo depois da vida adulta. Em vários poemas de Poéticas do Cuidado, das brevidades e das suturas (Editora Folhas,2025), identifica-se uma atenção especial para gestos simples, pequenas observações e encontros cotidianos. Nos diga se você acredita ou não que preservar a capacidade de encantamento é também uma forma de maturidade? O que a vida adulta costuma perder quando deixa de observar o mundo com atenção?
G.M. – Acredito piamente que preservar a capacidade de se encantar não é um traço de ingenuidade infantil, mas uma das formas mais refinadas e difíceis de maturidade. A infância se encanta pelo desconhecimento; a maturidade poética se encanta pelo reconhecimento da fragilidade e da beleza que insistem em permanecer, apesar de tudo.
Quando a vida adulta deixa de observar o mundo com atenção, ela perde a dimensão do incomensurável.
Ganhamos eficiência, mas nos tornamos analfabetos da delicadeza. O mundo contemporâneo, excessivamente funcional e mediado por métricas de desempenho, tenta domesticar o nosso olhar. Deixar de atentar para o miúdo é abrir mão da nossa própria condição senciente, aceitando a robotização dos dias. Olhar com atenção é um ato de desobediência poética.
R.N. – No poema “Unidade“, a separação entre homem e natureza é colocada em questão. Essa percepção nos traz uma visão menos individualista da existência e mais relacional. Como essa ideia dialoga com sua compreensão do desenvolvimento humano? O sujeito se constrói sozinho ou somos sempre resultado dos vínculos que estabelecemos com pessoas, lugares e paisagens?
G.M. – O poema “Unidade” nasce de um incômodo com a ficção moderna do “sujeito autossuficiente”. Essa ideia de que nós construímos sozinhos, em uma espécie de empreendedorismo de si, é uma falácia que gera muito adoecimento. Minha compreensão do desenvolvimento humano é essencialmente relacional e fenomenológica.
Não existe um “eu” sem um “onde” e sem um “com quem”. Somos o resultado vivo dos vínculos, das costuras que fazemos com os outros, mas também com as paisagens que habitamos, os livros que nos acolhem e os silêncios que partilhamos. A separação entre homem e natureza, ou entre sujeito e objeto, é uma ferida teórica que a poesia tenta suturar, lembrando que nossa existência é uma teia interdependente.
R.N. – Toda literatura nasce de uma visão de mundo e de uma teoria do belo, mesmo quando não declarada. E aquilo que o autor acredita ser o coração da arte. Na sua escrita, o que é o “belo”? Onde ele está? Há algum pensamento teórico que dialoga com o modo como você constrói o encanto e a beleza dentro do seu livro?
G.M. – Para mim, o “belo” não habita o campo da simetria perfeita ou da estética intocada. O belo está naquilo que carrega o tempo, naquilo que foi exposto ao vento e à imperfeição da existência. Ele está no rastro de humanidade que resiste na dor, na costura precária de um dia difícil, na sutil harmonia de um encontro sincero.
Teoricamente, minha escrita dialoga muito com a fenomenologia e com a hermenêutica do cuidado. Pensadores que investigam a mimesis não como mera imitação, mas como recriação séria do cotidiano e da dignidade humana, me acompanham. A beleza, no livro, surge quando conseguimos desvelar a sacralidade profana das pequenas coisas, arrancando o encanto do território do extraordinário e devolvendo-o ao rés do chão.

R.N. – Uma das tensões mais interessantes do seu novo livro Poéticas do Cuidado, das brevidades e das suturas (Editora Folhas,2025) está no contraste entre cuidado e controle. Em uma sociedade cada vez mais orientada pela produtividade, pelo desempenho e pela gestão do tempo, o cuidado parece exigir outra lógica. Em sua visão, por que temos tanta dificuldade de cuidar e sermos cuidados? O controle é uma necessidade humana ou uma tentativa de responder aos nossos medos?
G.M. – Essa é uma das grandes tensões da nossa época. Vivemos em uma sociedade obcecada pelo controle, pela gestão algorítmica do tempo e pela ilusão de que podemos prever e mitigar todas as vulnerabilidades. Ora, o cuidado exige exatamente o oposto: ele pede a renúncia ao controle. Cuidar de alguém, ou permitir-se ser cuidado, requer abrir mão das defesas e aceitar o tempo do outro, que quase nunca coincide com o tempo do relógio produtivo.
Temos tanta dificuldade nessa dinâmica porque o cuidado nos expõe. O controle é, no fundo, uma tentativa desesperada de responder ao medo da morte, da perda e da nossa própria finitude. Quando tentamos controlar o cuidado, nós o transformamos em vigília ou em burocracia. O verdadeiro cuidado é um ato de entrega ao imprevisto da vida.
R.N. – Após a leitura do seu livro ousamos aproximar as reflexões sobre a possibilidade de a arte existir depois das grandes tragédias históricas. Em um mundo marcado por guerras, desigualdades e sofrimento social, o que ainda justifica escrever poesia? A poesia oferece respostas para a brutalidade ou cria condições para convivermos melhor com as perguntas que ela produz?
G.M. – A pergunta sobre a possibilidade da arte após as grandes tragédias é um fantasma que ronda todo escritor. Em um mundo fraturado por guerras e violências sistemáticas, escrever poesia pode parecer um luxo ou uma inocência. No entanto, vejo a poesia como uma das últimas trincheiras da resistência humana.
A poesia não oferece respostas geopolíticas ou soluções mágicas para a brutalidade. O que ela faz é algo mais sutil e vital: ela preserva a integridade da linguagem contra o esvaziamento promovido pelo discurso do ódio e da indiferença. Ela não resolve o sofrimento, mas cria as condições para que possamos suportar as perguntas difíceis sem nos desumanizarmos. Escrever poesia no meio do caos é afirmar que a barbárie não tem a palavra final.
R.N. – Ainda imersos na leitura de Poéticas do Cuidado, das brevidades e das suturas (Editora Folhas,2025), surgiu a sensação de que os poemas ensinam um modo de olhar. Não no sentido escolar da palavra, mas como uma educação da atenção. Você acredita que a sensibilidade pode ser cultivada como uma competência humana? O que perdemos quando deixamos de exercitar essa capacidade de observar e escutar o mundo?
G.M. – A sensibilidade pode e deve ser cultivada; ela é uma competência profundamente humana que corre o risco de atrofiar se não for exercitada. Não se trata de um sentimentalismo difuso, mas de uma disciplina do olhar e da escuta.
Quando deixamos de exercitar essa capacidade de escutar o mundo, nós nos tornamos anestesiados. A palavra anestesia significa, na sua raiz, a ausência de sensação. Uma sociedade anestesiada perde a capacidade de se indignar com a injustiça e de se comover com o sofrimento alheio. O que perdemos é a nossa própria textura humana, transformando-nos em engrenagens funcionais de uma máquina que consome nossa atenção sem nos dar nada em troca.
R.N. – No poema “Cuidado”, o ato de cuidar é tratado como um movimento circular que envolve a todos. Há uma ideia muito bonita de interdependência. Em sua experiência, o que costuma ser mais difícil para as pessoas: oferecer cuidado ou aceitar ser cuidadas? O que essa dificuldade expõe sobre a maneira como construímos nossas relações?
G.M. – No poema “Cuidado”, busco essa imagem do movimento que nos enlaça a todos. Em termos práticos, percebo que aceitar ser cuidado costuma ser muito mais difícil para a maioria das pessoas do que oferecer amparo.
Oferecer o cuidado, de certa forma, nos coloca em uma posição de aparente força ou controle. Já aceitar o cuidado exige que desçamos do pedestal da autossuficiência e digamos: “Eu não dou conta sozinho”. Essa dificuldade expõe o quanto nossa cultura associa a dependência à fraqueza. Construímos relações baseadas em transações ou em assimetrias de poder, e a circularidade do cuidado quebra essa lógica, exigindo uma horizontalidade radical baseada na nossa comum fragilidade.
R.N. – Grande parte das teorias do desenvolvimento fala de crescimento, autonomia e amadurecimento. Seu livro, porém, parece lembrar que a fragilidade é parte da experiência humana. Em algum momento passamos a enxergar vulnerabilidade como fraqueza? Como a poesia pode contribuir para uma compreensão mais generosa das nossas limitações?
G.M. – A modernidade ocidental construiu um império discursivo baseado no crescimento linear, na autonomia absoluta e na performance. Nesse cenário, a vulnerabilidade acabou sendo empacotada e rejeitada como se fosse sinônimo de fracasso ou disfunção. Esquecemos que a fragilidade é a nossa condição de base: somos corpos perecíveis, seres de falta.
A poesia contribui para uma visão mais generosa de nós mesmos porque ela não exige do sujeito uma postura de vencedor. Na poesia, a rachadura é o lugar por onde a luz e o sentido entram. Ao dar nome às nossas limitações, dores e brevidades, o poema retira o peso da culpa e transforma a nossa vulnerabilidade em um espaço de comunhão e acolhimento mútuo.
R.N. – Na parte final do livro, a ideia de sutura surge como uma imagem muito poderosa. Não há promessa de cura completa, mas a possibilidade de continuar vivendo com aquilo que nos atravessa. Como nasceu essa metáfora dentro da obra? Existe alguma diferença importante entre curar uma ferida e aprender a conviver com ela?
G.M. – A metáfora da sutura nasceu muito da observação do ambiente terapêutico e das minhas leituras sobre a clínica e a psicanálise. A sutura é o avesso da promessa médica ou mercadológica de uma “cura total” que apagaria o passado. Suturar é aproximar as bordas de uma ferida para que o próprio corpo encontre um caminho de continuidade.
Existe um abismo entre curar uma ferida — no sentido de fingir que ela nunca existiu — e aprender a conviver com ela. A sutura aceita a marca; ela sabe que o tecido social ou anímico nunca mais será o mesmo após o corte. Aprender a conviver com a ferida é entender que a cicatriz faz parte da nossa identidade e da nossa história. A sutura nos permite seguir adiante, mas sem esquecer o que nos atravessou.
R.N. – Sobre o poema Reparo, o verso “há nas palavras um fio mínimo que tenta costurar o que se rompe” parece condensar boa parte do projeto do livro. Em que momentos da vida você percebeu que a linguagem possui essa capacidade de reparo? Há experiências que só conseguimos compreender depois que encontramos palavras para elas?
G.M. – A linguagem tem essa dupla face: ela pode ferir e rotular, mas possui também uma capacidade quase artesanal de reparo. Percebi isso em diversos momentos da vida, seja no recolhimento da minha biblioteca pessoal, seja na escuta atenta das narrativas de dor no contexto da saúde. Há momentos de luto ou ruptura em que o mundo parece desmoronar; a busca pela palavra exata funciona como esse fio mínimo que tenta restabelecer um nexo, uma costura simbólica.
Certamente há experiências que nos habitam como assombros silenciosos até que encontremos as palavras para elas.
A palavra não apaga o trauma, mas ao nomeá-lo, retira-o do lugar do impensável e o traz para o território da partilha e da elaboração. A linguagem dá contorno ao que antes era apenas abismo.
R.N. – Vivemos cercados por estímulos, informações e urgências. Seus poemas seguem na direção contrária, valorizando o instante, a pausa e a observação. A aceleração afeta apenas nossos hábitos ou também modifica a forma como sentimos e nos relacionamos? O cuidado exige necessariamente desaceleração?
G.M. – Acelerar a vida não muda apenas a velocidade com que nos deslocamos ou consumimos informações; modifica profundamente a ecologia dos nossos afetos. Sob o império da pressa, os sentimentos se tornam superficiais, as relações viram conexões descartáveis e a capacidade de interiorização se perde.
O cuidado exige, de forma inegociável, uma desaceleração. Não há como cuidar em ritmo de urgência. O cuidado pede tempo para o desdobramento do outro, pede paciência com o ritmo da dor ou da recuperação. Desacelerar, portanto, não é um mero capricho de estilo de vida, mas uma necessidade ética e política para mantermos o mundo habitável.
R.N. – A filósofa Luigina Mortari afirma que permanecer na responsabilidade do cuidado é uma tarefa difícil porque não há garantias nem recompensas asseguradas. O cuidado continua sendo um valor possível em uma sociedade tão marcada pelo individualismo? O que sustenta alguém na decisão de cuidar quando não existe certeza de retorno?
G.M. – A perspectiva de Luigina Mortari é cirúrgica. O cuidado desconcerta a lógica utilitarista porque ele não opera na chave do investimento com retorno garantido. Em uma sociedade hiperindividualista, a decisão de cuidar torna-se um ato de pura dissidência.
O que sustenta alguém nessa escolha, mesmo sem garantias, é a percepção ética de que a vida só se justifica quando se torna abrigo para outra vida. Cuidar é uma aposta na continuidade do mundo comum. Quando cuidamos sem barganha, estamos afirmando que o valor de um ser humano está na sua simples existência, e não na sua utilidade econômica. É o cuidado compreendido como poiesis: uma criação que traz em si o seu próprio sentido e recompensa.
R.N. – Ao terminar a leitura, fica a sensação de que o livro não tem a pretensão de transformar radicalmente o mundo, no entanto, os poemas modificam a maneira como nos posicionamos diante dele. Quando imagina alguém fechando a última página de Poéticas do Cuidado, das Brevidades e das Suturas, qual experiência gostaria que permanecesse com esse leitor? E qual cuidado você espera que ele leve consigo para além do livro?
G.M. – Eu gostaria que o leitor, ao fechar o livro, sentisse um leve deslocamento no seu modo de habitar os dias. Que ele não saísse dali com certezas absolutas, mas com o olhar um pouco mais demorado para as pessoas e os espaços ao seu redor.
Espero que permaneça com ele o desejo de não abandonar as pequenas fraturas do seu cotidiano — sejam nas relações, nos afetos ou na própria alma —, mas de olhar para elas com a disposição de quem busca a sutura, e não o descarte. O cuidado que eu gostaria que ele levasse para além das páginas é o cuidado com o incalculável, com aquilo que não pode ser medido, otimizado ou precificado, mas que sustenta o que nos resta de mais sagrado e humano.
R.N. – Terminamos com aquele caloroso tapinha nas costas. Agradecemos demais por somar conosco. Conclua falando o que desejar. Liberdade total. Até uma próxima. Agradeço imensamente pela profundidade desta leitura e por permitirem que o livro ganhasse novos sopros através dessas questões. Esse diálogo, de certa forma, também funciona como um exercício de atenção e de sutura. Que possamos continuar atentos às brevidades e dispostos ao reparo das nossas costuras cotidianas. Um abraço fraterno e até a próxima.

Giovani Miguez é poeta, escritor e servidor público. Especialista em Sociologia e Psicanálise, mestre e doutor em Ciência da Informação, com formação em Biblioterapia e mediação de leitura. Nascido em Volta Redonda (RJ), hoje reside no Rio de Janeiro. É autor de 18 livros, entre eles os recentes Um elogio à preguiça, Amor fati e Notações paridas (Uiclap, 2024). Na sua poesia, Miguez explora a expressão e reflexão existencial. Ora lírico, ora político, ora científico, mas sempre est(ético), o poeta segue sendo profundo em suas generalidades.

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