por Soraya Viana
professora, tradutora e colunista da Revista Navalhista.
Ecos do autoengano
Iniciado com uma epígrafe de Jacques Lacan, o novo livro de Ricardo Augusto Esposto, O papagaio (Minimalismos, 2026), promete — e entrega — uma narrativa sobre a tortuosidade dos caminhos do egocentrismo.
No primeiro capítulo, um protagonista não nomeado volta para casa após meses em um retiro espiritual. Enquanto dirige, pensa nas pessoas importantes para ele. Entre elas, a namorada, que anseia por rever, e o irmão, com quem não tem um bom relacionamento.
A princípio, o protagonista parece pleno de alegria com o autoconhecimento recém-adquirido e faz questão de tratar com benevolência até mesmo os desconhecidos. Mas a máxima “é fácil ser sábio no alto da montanha” vem à mente ao vermos o descontrole do personagem sempre que confrontado com dificuldades, já que ele culpa terceiros pelo próprio desequilíbrio. A real dimensão de seu autoaperfeiçoamento é revelada em pensamentos, dos quais o papagaio do título é porta-voz.
Com base no tempo no mosteiro e nas experiências lá vividas, como o sentimento oceânico, o protagonista acredita ter alcançado um estágio de evolução acima do das pessoas de seu convívio. Ele está convicto de que ajudá-las a alcançar a iluminação é uma tarefa que lhe cabe. Sua presunção de superioridade e outras questões internas — em especial a perspectiva limitada de eventos traumáticos da infância e a dinâmica de dominação de suas ligações amorosas — expõem um homem irascível e até violento.
Ao enfocar as relações pessoais do protagonista, Esposto é hábil em ilustrar a proporção do orgulho originado de inseguranças humanas comuns, e nos faz refletir se a persistência do buscador é suficiente para um amadurecimento espiritual ou psíquico.

A exemplo da alegoria do pássaro que revela as verdades feias escondidas nas meias palavras, chama a atenção o uso do plano simbólico na narrativa. O enredo descreve alguns sonhos do protagonista e faz referências a símbolos místicos. Destacam-se o Fawohodie (que representa emancipação) e a árvore mangueira (símbolo de abundância); reverenciados pelo personagem, eles aparecem em momentos significativos da trama para indicar o encerramento de um ciclo ou a arrogância — a exemplo da passagem em que o protagonista questiona se o deus Asura está tentando provocá-lo. Não por acaso, essa divindade está associada ao ego e à violência.
O autor ainda alude à relação entre angústia psicológica e mal estar físico, e expressa de maneira cinestésica as percepções do personagem, em trechos como o seguinte:
(…) mas o silêncio já não tinha o mesmo sabor de antes. Continuava com o gosto de uma ponte de madeira abandonada no escuro de uma noite qualquer ou de uma memória antiga, como o odor de uma mãe falecida há mais de trinta anos.”
O enredo leva a cogitar sobre a extensão da necessidade humana pela fé em elementos exteriores a si e o papel do apego exacerbado a um guru no desenvolvimento do fanatismo religioso. Ambos os pontos, abordados de forma sutil e não didática, evidenciam a perícia do autor em ficcionalizar uma ocorrência comum na História humana. A narração onisciente, por sua vez, mostra a ilusão do protagonista, que se autointitula “iluminado” mas evita encarar seu interior mais profundo. Assim, ela ilustra que nosso autoconhecimento costuma ser bem menor do que imaginamos.
Por fim, a projeção do personagem em um conhecido fisicamente parecido com seu mestre constrói um jogo de espelhos invertidos em que os conceitos limitadores de bem e mal demonstram imaturidade.
O papagaio indaga não apenas se nossas ideias e ações nos conduzem à epifania, mas se ela sequer existe. Num texto apurado e enxuto, Ricardo Augusto Esposto explora os meandros do egoísmo que provoca autoengano e nos estimula a observar a força do inconsciente e vigiar o próprio ego antes de qualquer coisa.

Ricardo Esposto é escritor amador, nascido em 11 de abril de 1996. Interessado pelas complexidades da mente humana, transita entre a psicanálise, a filosofia e a ironia como formas de compreender o mundo. É autor de O Messias e seu Demônio (2019), publicado com apoio da Lei Paulo Gustavo por meio de um projeto aprovado em 2023, e de Caçadoras de Narcisistas (2024). Em 2026, lançou O Papagaio pela Editora Minimalismos. Suas obras, marcadas por um viés psicológico e satírico, exploram as contradições do comportamento humano, o conflito entre a moral e o desejo, as falsas virtudes e a busca por um sentido que mascara o vazio da vida em sociedade.

![RICARDO ESPOSTO – O papagaio [resenha]](https://revistanavalhista.com/wp-content/uploads/2026/06/a2d64ff1-27ea-492a-8fc9-b1a1c5b9ca5e.jpg)