O café quente sobre a mesa expelia um vapor com aroma de Brasil. Há duas semanas, nesse mesmo momento, enterrava sua única esposa, a pessoa que, durante toda sua vida, esteve ao seu lado. Era ela quem mantinha a casa em ordem, cuidando dos pequenos detalhes que tornavam tudo mais acolhedor. Agora, porém, o trabalho foi transferido ao velho carteiro aposentado. Naquela tarde, retirava com cuidado os papéis da gaveta, quase todos já amarelados pelo tempo. Um a um, analisava-os, separava-os, seja para o descarte ou para a lembrança. Então, um envelope antigo lhe chamou a atenção. Completamente marcado pela idade, trazia uma data: 7 de novembro de 1982. Acima, o nome do remetente; do outro lado, um endereço em Piên e o destinatário não especificado: “meu filho eterno”. Dentro, claramente havia uma carta. Essa, porém, nunca chegou ao seu destino. Vieram dúvidas em sua mente: teria sido culpa dele? Como sua esposa nunca viu a carta por ali? — mas essas perguntas agora pouco importavam.
Com uma vida muito monótona desde a aposentadoria, e mais ainda após o falecimento de Alice, nada restava para seus dias. Estava decidido a buscar aquele endereço e o destinatário. Afinal, o máximo que poderia acontecer é não encontrá-lo, algo que já estava completamente acostumado nos longos anos de entrega. Não conhecia a cidade de Piên, mas, com poucos cliques, descobriu que se situava no estado do Paraná, não muito longe dali. Cerca de duas horas de carro. Aproveitou o resto do dia para preparar sua viagem. Sentiu um entusiasmo que não experimentava desde a infância; a ideia de uma aventura reacendeu algo já apagado em seu peito. Saber o motivo da carta despertava ainda mais sua curiosidade. Separou algumas comidas, roupas e remédios. Dormiu cedo, querendo logo ver o nascer do novo dia.
Por volta das 9h da manhã, saiu em direção a Campo Alegre. O sol brilhava no céu limpo cor-de-anil daquele sábado. Logo que deixou a cidade central, pode sentir o vento da natureza, fresco e vibrante, no auge do verão, depois de muito tempo. Abriu a janela e permitiu que ele invadisse o carro, como se limpasse a poeira de anos de vida rotineira. Subindo a Serra Dona Francisca, pequenas casas perdidas se espalhavam no meio de plantações. Em algumas, era possível ver pessoas trabalhando nas colheitas de hortaliças. Aquilo lhe trouxe uma sensação inexplicável. Pareciam ter saído de um filme camponês. Jamais imaginava algo assim em pleno Brasil do século XXI. Um desejo súbito de ter vivido de tal maneira, na simplicidade, próximo à terra, o invadiu. Numa das pequenas hortas em que passou, duas garotinhas, ainda muito jovens, acenaram para ele, que sorriu. Um sorriso não só de felicidade, porém, também, de medo. Algo que dizia não saber explicar.
No alto do Planalto, mais vilarejos. A cada conjunto de casas alemãs rodeado de frutas vermelhas e ovelhas, seu coração saltava. Mas, naquela altura da vida, era preciso aceitar o destino. Antes do meio-dia, chegou em Piên. Não conhecia a cidade, e não era adepto de programas de GPS, assim, precisou perguntar para algumas pessoas o caminho para chegar ao endereço indicado no envelope. Alguns, mais velhos, estranharam a pergunta, outros, jovens, responderam normalmente. Ele percebeu isso. Tantos anos de conversas lhe deram habilidades raras de análise.
Por volta das 13h30, encontrou a rua indicada na carta. Não era possível entrar lá usando automóvel, visto que uma obra estava sendo feita pela prefeitura logo na entrada, então estacionou-o na rua principal e seguiu a pé. Uma pequena rua coberta de terra, no interior do interior do Brasil. A casa número 71 era uma pequena habitação de alvenaria, com um jardim na frente e alguns vasos de flores. Achou-a muito agradável. As janelas estavam abertas, indicando sinal de vida por ali. Bateu palmas. Uma, duas, três vezes. Ninguém. Estava indo embora quando uma garotinha saiu de dentro da casa. Ele pediu que ela chamasse o responsável. A menina fitou-o por alguns segundos e correu para dentro da residência. Um tempo depois, uma idosa, apoiada em um andador, apareceu na porta e perguntou o que ele queria.
— Boa tarde, senhora. Eu sou um carteiro. Encontrei uma carta de 1982 destinada ao filho de Anacleto Souza. Você saberia me dizer se ele ainda mora aqui?
A expressão do rosto dela mudou. Se antes transparecia um cansaço da vida, agora parecia relembrar toda ela. Se aproximou, com dificuldade, do portão e pegou a carta. Não chegou a abri-la. Olhou apenas o envelope. Foram longos três minutos. Uma lágrima escorreu de seus olhos. Sem dizer nada, entregou o envelope de novo ao carteiro e enxugou o rosto. Após se recompor, pediu que ele fosse ao cemitério da cidade e procurasse pelo túmulo de Gustavo Souza. Antes que ele pudesse perguntar o que faria lá, ela entrou novamente na casa e fechou a porta.
Desnorteado, o carteiro retornou ao automóvel e pensou em voltar à Joinville. A curiosidade, no entanto, era maior. Pediu informações para mais um jovem que estava na rua e seguiu até o Cemitério Municipal. Fazia calor. Era 14h40 quando ele estacionou o carro nas cercanias do local onde estaria o túmulo do “filho eterno”. Assim que ultrapassou os portões, viu o coveiro trabalhando na varredura do caminho que levava à capela. Identificou-o pelo uniforme. Era um idoso, quase de sua idade. Sentiu um pouco de compaixão. Provavelmente, não conseguiu, ainda, se aposentar. O carteiro perguntou-lhe se poderia indicar onde se encontrava a tumba de Gustavo Souza. O coveiro parou e fitou o joinvilense por um tempo.
— Você não é daqui, né?
— Não, sou de Joinville.
— Imaginei — sorriu — Mas por qual motivo quer achar a tumba dele?
— Tenho uma carta.
O homem hesitou por um tempo, com dúvida, mas apontou uma direção para o idoso, que seguiu, olhando cada cova. Próximo ao fim do terreno, achou uma tumba já empoeirada, com o nome que buscava. Ao lado, uma outra, com o nome de Roger Müller. A data de morte de ambos era a mesma: 14 de maio de 2013. Ali, diante da foto sorridente, sentiu-se confiante para ler a carta. O envelope abriu facilmente, como se alguém já o tivesse violado.
“Meu querido filho. Os tempos mudaram, e eu também mudei. Eu quero te ver de novo, não consigo mais viver assim. Agora, estou em Joinville. Moro numa casa muito bela próxima ao centro. Ainda me lembro que, quando você era só uma pequena criança, dizia que viria morar aqui quando crescesse. As coisas que aconteceram desde lá não me orgulham nem um pouco. Estou extremamente arrependido. A cadeia muda todos nós. Gustavo, quero que você esqueça todas as péssimas palavras que dirigi para você. Quero apenas que volte. Que seja meu filho de novo. As pessoas erram. Quero merecer o seu perdão.
Do seu pai arrependido.
Novembro de 1982, quase verão.”
Aquela carta partiu o coração do carteiro, que, agora, entendia tudo. Tremendo, deixou a carta sobre o túmulo de Gustavo e tirou o boné diante das covas de ambos. Pediu perdão, mesmo não tendo lhes feito nada. Ao passar pelo coveiro, despediu-se; o homem com um sorriso no rosto, o carteiro desolado. O retorno a Joinville foi trágico. O sol se punha, e as árvores desenhavam sombras no asfalto. A brisa fresca era, agora, fria. As pessoas não mais colhiam coisas pelas hortas. As casas estavam todas fechadas, e as famílias, reclusas.
Ao chegar em sua casa, já no início da noite, nada mais podia fazer. Sentou-se no sofá e desabou em choro. Após quase uma hora mergulhado na tristeza, ligou o computador, abriu o email e pôs-se a digitar: “Querida filha Laura, eu errei. Eu te quero aqui. (…)
De Amon, seu pai muito arrependido,
Janeiro de 2024, é verão.”

Vinicius Pscheidt é um jovem estudante do Instituto Federal Catarinense, apaixonado por literatura desde muito novo. Num mundo em que é difícil se fazer ouvido devido a tantos ruídos, a escrita se mostra um refúgio. Escrevo sobre minha região, no interior do Sul brasileiro, raramente retratada na Literatura, sobre sentimentos humanos atuais e sobre como pequenos acontecimentos podem mudar uma vida.

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