palhaço é quem espera
Genérico material e concreto sob o sol
vejo que o mundo é uma árvore de fantasmas
(ou há
subjacente ao mundo uma árvore
mandando para cá fantasmas)
e a chuva sabe quando chove
e quando chove tudo que falta falta menos
e se molham os fantasmas
(pode-se então quase que ver
através de suas roupas molhadas)
mapa neurótico-obsessivo do grajaú e adjacências
Impossível te ouvir no meio
desta rua arborizada
sorvo hipnotizado as tuas dificuldades
viro a esquina da rua escura e pergunto
a um desconhecido qual é o seu nome
(não o dele, o seu) por mais
que eu sinta que deveria saber
e saiba por certo que ele não sabe
e não quero saber
com a vertigem dum vôo de pombo
o único animal além do homem que sabe
o tempo todo que vai morrer
errata
A esta altura cabe perguntar-me:
pra que
um castelo, tanto espaço?
não vê? porque eu não vejo
tanta odisséia.
As coisas vêm, veja
às unidades
não são figurinhas
nem esferas do dragão
o amor é simples
a vida é simples e curta
não dá piolho
sem cabelo
nem resposta sem pergunta
devir-rebordose
Noite horrenda:
encontro sexual do comentário
com quem comenta
além da paisagem as dunas
além do sonho os cães
roupas de baixo que
são como potes de purpurina:
às vezes há só o resto
e de novo aqui a questão da pele
deixam uma pequena duna
sobre o dedo
me perco no gesto
universal de pôr a cara
contra a parede, que está sempre fria
pra quê pôr comprimidos
em papéis tão brilhantes
se já eu queria tomá-los antes?
pra quê olhos tão brilhantes?
seus olhos são lindos, meu bem
mas poderiam ser de qualquer um
o sol que nos obriga etc.
Há essas vastidões ligadas
por calçadas e elevadores
coisas imensas,
da natureza dos trechos
há, ó céus, os rolling stones
com o mick taylor
há tantas e tantas e tantas
roupas de baixo, sozinhas
e acompanhadas
tanto espaço
vazio a ser compartilhado
e o amor, essa ave de rapina
a noite, essa bomba h
a cidade, esse sexo adaptado
caminhar na avenida, fazer
amor à meia luz de poste
que castigo, que sarjeta
que destino, bem
espero o ônibus mas deixo
passar, vai saber
qual deles traz
o fim do mundo dentro
mau tse-tung ou mal estar de sítio
Engradado, adormeço de você
inevitável, vazio de amor
as caixas de papelão
que não sabem a plástico
que vaidade no amarelecer
cheias de fita crepe
tomaram de assalto o gaveteiro
as estantes a cômoda
a cristaleira os armários
todos
desurbanizado, estou cercado
e seu retrato na parede
como o de um ditador
(sim senhor)

Eduardo Araujo nasceu e reside na cidade do Rio de Janeiro. É estudante de história da arte (EBA-UFRJ), poeta, músico e eventualmente artista visual. Versa sobretudo sobre as relações entre corpo, desejo e cidade, transitando entre a ironia, a melancolia e o embaraço da linguagem.

